Operação Bola de Neve 1




Ontem foi dado início à Operação Bola de Neve. O patrão acatou o pedido de uma semana de férias, a ocorrer na primeira semana de março. Com esta informação, a equipe (eu e minha esposa) poderá tomar decisões mais concretas acerca do período, tais como fretes e hospedagens. O objetivo da missão é fazer uma bola de neve e soltá-la abaixo pelo Mont Blanc com o intuito de causar a destruição da Chamonix-ville.

De fato, o objetivo é simplesmente ver e tocar neve de verdade, já que esperar na ilha não está dando muito certo neste sentido. A escolha de Chamonix, na França, é um pouco óbvia. É a cidade francesa mais próxima do Mont Blanc, e, consequentemente, no meio dos Alpes. Alpes é garantia de neve nessa época. Talvez ela não esteja caindo. Talvez ela não caia nos dias que a gente estiver por lá. Mas ela estará lá esperando, já no chão, devidamente espalhada pelas máquinas que tratam, todas as manhãs, as pistas de esqui.

Esquiar? Talvez. Snowboard é mais provável. Na verdade, fazer nada é o mais provável, já que é tudo caro demais quando o assunto é esporte de inverno. A taxa diária para usar os teleféricos é de cinqüenta euros, mais cara do que muita passagem de avião. Mais prancha, mais aula, mais entrada. Irei com muita vontade e pouco dinheiro no bolso. Quem sabe não surge uma calota de caminhão?

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| RS | 1/29/2008 12:26:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Sintomas

Há várias Londres. Cada microcomunidade tem sua proporção de importância na construção ou desconstrução deste ponto único do mapa múndi. Isso faz com que a cidade ganhe um aspecto de bolo. Há vários ingredientes. Ao misturá-los ao ponto de homogeneização, os sabores tornam-se um. E, assim como o bolo, existem basicamente duas Londres: a que se conhece e a que se experimentou.

Esta analogia babaca – afinal tudo na vida pode ser qualificado em ou conhece ou experimenta – serve para ilustrar a experiência em Londres. A cidade é um bolo bonito, apetitoso, Big Ben. Entretanto, de gosto ruim. Num blind test, Londres seria uma receita com alto índice de rejeição. Talvez a minha visão (ou memória!) do Brasil esteja um pouco embaçada. Talvez a minha visão de Londres esteja mais crítica. Talvez eu tenha enjoado do bolo.

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| RS | 1/18/2008 11:20:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Natural History Museum – Onde o reino guarda o espólio de guerra.



O prédio é ostensivo. Não pesquisei o passado, mas cada coluna, viga, acabamento nas escadarias e pintura no teto indicam que o prédio do Natural History Museum fora construído especialmente para a sua atual finalidade: abrigar uma grande coleção de animais empalhados oriundos dos mais diversos cantos deste mundo. Corrijo-me acerca do exagero. Há uma boa quantidade de fósseis e ossos, bem como várias instalações educativas-ilustrativas-interativas. A outra boa metade é de bichos taxidermizados.

A visita ao museu é brilhante por vários motivos. Primeiramente, por questões de vocabulário. Eagle, hank e owl estão lá, visíveis e com a plaquinha de identificação em baixo. Parece um dicionário ilustrado. Um outro lado interessante é que muitos dos bichos só podem ser vistos lá. Uns macaquinhos menores que um dedão. Peixes de águas profundas. Dodôs. É um paradoxo. Ao mesmo tempo que se poderia questionar a procedência destes corpos mumificados e também comover-se com o fato de que eram vivos e, por egoísmo nosso, para distração num domingo tedioso, matamos e empalhamos, há também uma boa desculpa para a adoção taxidermia. Ao menos é um bicho de cada, organizado e catalogado, exposto num museu para as crianças aprenderem algo. Mas isto já é outro paradoxo, pois que os ingleses e americanos curtem um tapete de urso, uma cabeça de alce na parede ou, no caso de uma perua mais moderna, um sofá de zebra, o que eu acho uma estranheza cultural tão grande quanto apedrejar mulheres.

Este é um outro lado interessante do passeio. Encarar diferenças culturais é um dos pontos-chave de uma experiência fora do país de origem. Um museu cheio de animais mortos é uma bizarrice. Mas isso é pouco para uma nação que cultua esportes como o dardo e corrida de greyhounds. Uma galera que usa uma marca de gel para cabelo chamado Moose não pode ser levada a sério. O alce usa sua galhada para desafiar outros machos e conquistar a fêmea, dizem eles. Para mim, galhada é coisa de corno, e alce é aumentativo de veado.

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| RS | 1/14/2008 01:30:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Looking (way too) foward

Vir para a Europa com a certeza de voltar para o Brasil tem criado uma síndrome. Primeiramente, tudo começa parecer-me enfadonho, câmera lenta. Uma burocracia. Estou mentalmente sentado no saguão de espera do Heathrow, aguardando meu vôo chamar. E eu sequer tenho o bilhete de retorno comprado, já que o meu expirou. Mesmo com a data de retorno em aberto, estou lá feito bobo, aguardando. Estou lá no site da Folha de São Paulo, vendo notícias, criticando o Lula, reclamando do meu Corinthians. O histórico do meu navegador fala português. Ansiedade é o sintoma desta minha volta planejada. Parece que eu sonhei com o número ganhador da loteria. Acordei na quinta-feira, fui à Casa Lotérica e preenchi o volante. E agora só resta-me aguardar pelo sorteio no sabadão. Não como, não durmo, faltei no trabalho. Não estou querendo dizer que o que estou fazendo por aqui terá um resultado financeiro positivo na minha vida. Mas a lógica é a mesma da loteria. A chance de acertar os números é remota, mas a confiança é tão grande que impede-me de pensar em algo mais. Sou um apostador da mega-sena aguardando por um looooongo fim de semana (no meu caso, vários meses) pela consagração do resultado. Uma espera torturante.

Eu deveria estar preocupado em curtir os meus últimos momentos de pobreza. Eu deveria guardar o bilhete premiado na gaveta, esquecer ele um pouco. Pois, assim como a mega-sena, a viagem de retorno tem data certa para acontecer. Não tem como antecipar.

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| RS | 1/09/2008 11:58:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Retrospectiva 2007: basicamente o ano em que eu vim para Londres.

Gostei de 2007. Não emagreci quarenta quilos, não entrei em medicina na USP e tampouco ganhei um leão em Cannes. Se eu emagrecesse quarenta quilos, estaria agora com vinte quilos, e eu não me orgulharia de ter esta visão na frente do espelho. Em termos de peso, acho mesmo é que acrescentei, só não posso precisar quanto, porque em Londres só tem balanças de moedinha ou aquelas scales caseiras por cinco pilas na Argos. Enfim, preguiça e total desinteresse. Medicina, por outro lado, não é fruto de preguiça ou desinteresse: é um dom que eu tento renegar. Optei por comunicação, e é esta carreira que vou seguir até o fim. As minhas idéias revolucionárias no ramo da saúde, neste caso, vão ter de esperar. A cura da ascaridíase lumbricóides ficará para gerações futuras descobrirem. Quando? Não sei. Milênios? Talvez. Por enquanto, ferva água antes de beber.

Um leão em Cannes eu bem que queria ter ganhado. De fato, estive bem perto. Posso considerar-me parte do seleto grupo de publicitários brasileiros que estiveram próximos de Cannes em 2007. São só duas horinhas de avião daqui de onde estou. Perto, não? Mais perto que isso, só morando em Recife. Na verdade, morar em Londres foi a distância, a barreira imaginária, o Canal da Mancha entre eu e o meu leão. O único leão aqui na ilha é o imposto de renda da rainha, que é tão voraz quanto a versão tupiniquim.

Mesmo sem Leão, foi um ano brilhante. Londres tem sido uma experiência intensa. Sou um Raoul Duke numa Las Vegas moderna, em busca do novo sonho (latino) americano, o sonho do mundo globalizado e sem fronteiras. Buscando forças e adquirindo habilidades para enfrentá-lo. Cortando as cordinhas que controlavam a marionete. Encho-me de orgulho ao lembrar que há poucos meses atrás eu morava no cú de São Paulo. Que eu mal fazia meu próprio café da manhã, descumprindo a ideologia de que quem não sabe fazer a própria comida não mereça viver. Eu era um fanfarrão, um moleque. Agora sou caveira. Vou no supermercado, compro leite e frutas. Alimento-me com comidas civilizadas e nutritivas. Faço um macarrão preza, com legumes on the side. Como vagem. Não desprezo a comida da mãe, mas o fato é que eu poderia ter me tornado um comedor de take away. Poderia ter ido pelo caminho fácil. Poderia comprar quilos de Walkers ou os lanchinhos do Marks & Spencer.

Saí de casa e acredito que não poderia ser mais fácil. Talvez a adolescência seja uma época desprezível porque ela parece não ter fim. O cara termina o colégio, entra na faculdade. Depois da facul, ele pensa seriamente numa pós graduação. Nesse meio tempo, continua um bebê gigante. Eu andava de carro nesta pista devagar. Decidi explodir o carro do pai, comprar um travel card e por-me na fast-lane da vida. Entre marcar e casar foram menos de dois meses. Depois foram as passagens, as malas e aqui estou. O tempo passou rápido e eu tenho sido muito feliz com as decisões que eu tomei sem pensar. Ainda penso muito, e esse é o maior dos meus defeitos. Corrigirei em 2008, mesmo porque 2007 já era.

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| RS | 12/31/2007 01:55:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Natal Inglês – Músicas



George Michael é a princesa da música natalina deste ano por aqui. Na verdade, principe, pois na época do Wham ele ainda era tido como macho. No clipe ele até posa do lado de umas mulheres e tal. Ele sempre fez pose e até enganou por um tempo. A música Last Christmas é de longe a mais tocada nas rádios, seja em sua versão original tecladinho-anos-oitenta, seja em suas mil e uma versões techno, x-factor e afins. Outros artistas tocam bem, como as baladinhas de natal do Bon Jovi. Mas os solos animalescos do Richie Sambora e o sotaque americano de Jon não funcionam tão bem aqui na ilha. Fora que, enquanto o George Michael só se esfregou, Jon chegou beijando a Cindy Crawford, o que põe o inglês britânico em situação constrangedora.

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| RS | 12/21/2007 12:33:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Natal Inglês – Christmas Crackers



Christmas Crackers é uma das bobagens tradicionais do natal inglês. São embrulhos cilíndricos que são vendidos até em farmácias. Por serem baratos e tradicionalmente aceitáveis, são comuns em festas. Uma pessoa de cada vez abre o seu embrulho – puxando as hastes com o objetivo de estourar o papel. O então presenteado veste a coroazinha de papel e lê a piadinha infame. A combinação natal, excesso de álcool, coroa de papel e piadinha funcionam. Tanto que a maioria das pessoas nem ligam para o presentinho vagabundo que vem junto no cracker.

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| RS | 12/19/2007 01:00:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Muitos suditos

Londres foi o destino mais visitado no ano passado. Conhecendo a cidade em seus detalhes, digo que as coisas são fáceis no mundo do turismo. Coroe uma rainha, construa um relógio grande e uma roda-gigante grande, cultue hábitos alimentares estranhos. Água também é importante. No caso de Londres, o rio Thames e a garoadinha eterna. Londres é uma cidade divertida, e como eu não conheço outras (exceto São Paulo, 62 na lista), fica difícil traçar prós e contras (no caso de Londres x São Paulo, a lista de prós). Mas 10 milhões de visitantes a mais que Nova Iorque é bizarro. E, analisando a lista, é possível dizer que o turismo no Brasil explodirá quando nos tornarmos parte do hemisfério norte. Enquanto isto não acontece, convém investir em alternativas menos fáceis, como “promover surpresas aos visitantes”.

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| RS | 12/14/2007 03:11:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Algum motivo, algumas notas

Com a queda da CPMF, o Brasil se torna um país menos desagradável para se viver. Após nove meses sem nenhum tipo de taxinha safada nos bancos daqui, depositando, sacando, vendo extrato, pagando com cartão de débito contas de £5 (ou até menos!) sem ver cara feia ou levar susto ao checar o statement, seria um tanto quanto doloroso ver o governo brasuca enfiar a mão na caderneta e sacar 0,4% do meu dinheiro toda vez que eu precisasse de uns trocos. Parece irrisório, mas são R$ 3,80 a cada R$ 1.000. Que se exploda a saúde. Não dou a mínima para o bolsa-família. Me devolva os quatro contos que eu intero para pagar o plano de saúde. Afinal de contas, todo mundo tem que pagar de qualquer jeito.

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| RS | 12/13/2007 03:30:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


O Brasil depois de 02/12/2007 (ou “Teorias malucas sobre o rebaixamento”)

Há dois anos que o Corinthians tem se esforçado muito para ter o prazer inédito de jogar um torneio de segunda divisão. Tudo começou faltando um mês para a Copa do Mundo de 2006, quando teve fim o período dinheiro-sujo-jogadores-mercenários-falta-de-administração que nos garantiu o título de 2005. O dia exato da queda do então curto período de superioridade corintiana foi 5 de Maio daquele ano, quando o River Plate arrancou um resultado incrível, na “casa” do Timão, sacando-nos da Taça Libertadores da América. Desde então, o alvinegro parece ter selado um compromisso com a segunda divisão, afinal de contas, tal qual a Libertadores, a série B é uma taça que falta no Memorial. Nos esforçamos muito para “garantir vaga” no então Brasileirão de 2006. Porém, quatro outros times conseguiram a façanha de tomar a vaga do Coringão, adiando nosso sonho por um ano. De fato, a sorte do Corinthians ano passado foi a pura e simples capacidade dos outros clubes serem piores. Não rolou tapetão, cartola, colarinho branco ou mala preta para salvar o Campeão dos Campeões – não desta vez.

A história, entretanto, foi diferente em 2007. Betão, Zelão, Lulinha. Os astros da várzea escalados para garantir a vaga na Série B de 2008 impressionaram nas primeiras rodadas, levando o clube, mesmo que por alguns instantes, ao topo (superior) da classificação. Mas logo o esquema tático de Nelsinho começou a funcionar, e passamos a vacilar entre décima sétima e décima oitava posições. Goiás tentou ser pior, mas não teve jeito. O Timão foi superior na inferioridade este ano e garantiu a última vaga para a segundona.

Enfim, estando fora todo o campeonato, não pude ver mais do que notícias e estatísticas através da Internet. Alguns jogos, em dias off, ousei ouvir por rádio. Numa análise fria e generalizada, o rebaixado não só atraiu mais atenção que o campeão. Foi também a maior (e, para muitos, a melhor) notícia destes últimos nove meses no Brasil. Abafou até o Renan Calheiros. Abafou o casamento do Massa. Abafou o Schumacher fazendo compras no Rio. Não abafou o presidente, que é corintiano e acabou entrando na zoação geral.

Aliás, o governo Lula tem um estilo todo Corinthians de ser. Escandalos, dinheiro sujo, propina. Nos últimos anos, o Timão tem se apoiado em seu passado glorioso, usando-o como desculpa para seu desempenho lamentável. Não pode ser rebaixado porque é um grande clube, de tradição, todo mundo conhece. Lulinha, o ás do ataque corintiano, não marcou nenhum gol e fez quinze passes errados. Lulinha é a Infraero do Corinthians. Lulinha é a Comissão de Ética do Senado do alvinegro. Lulinha não funciona, mas vale milhões. Lula, por outro lado, é o Betão de Brasília. Marcou três gols, mas fez oitenta e dois passes errados. As estatísticas revelam que, embora tenha toda a tradição, o rebaixamento é mais coerente que o terceiro mandato.

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| RS | 12/04/2007 11:20:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Pronto para o pior

Passei a acompanhar a previsão do tempo com mais assiduidade. Gosto das previsões hora-a-hora fornecidas por algumas agências. Na última madrugada, por exemplo, era previsto zero grau às três da manhã. Então às nove a temperatura cairia um ponto. Seria a minha primeira experiência abaixo de zero. Coloquei um copo com água para fora da janela e acordei nove e meia. A água continuava líquida, o que leva à duas hipóteses. Ou não fez -1 em Willesden Green ou a hard and disgusting Thames water que estava dentro do copo tem ponto de congelamento diferente das águas comuns. Sem um termômetro apropriado, fica impossível saber qual foi a verdadeira temperatura. O que posso dizer é que quando cheguei em casa ontem de madrugada, por volta das uma e trinta, não estava tão frio, contrariando a previsão severa. Minha respiração condensava imediatamente e em forma abundante. Sério, a nuvem de vapor que saía do nariz e, eventualmente, da boca, eram densas como nunca tinham sido. Mas a sensação não era glacial. Mesma jaquetinha de sempre. Sem touca, cachecol ou luva. Calça jeans de boa. Mesmo Converse de sempre e um par de meias (!). O céu estava lindo. Limpo como nunca, possibilitando a vista de algumas estrelas. O tom era um azul escuro, tanto pelo reflexo das luzes da cidade, quando pelo reflexo da luz da lua, que estava cheia e branca fluorescente. Até a raposa, que há tempos não via, saiu ontem para uma night out aqui nas redondezas.

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| RS | 11/24/2007 10:39:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Tem tudo mas não tem nada

Lewis Hamilton, o piloto prodígio que tinha a taça de campeão da F1 na mão, perdeu o título por um ponto. O rugby inglês seguiu uma trajetória relativamente heróica na copa do mundo, exceto pela derrota na final contra a ex-colônia (e que sempre bate os ingleses neste esporte) África do Sul. E, como se tudo isso não fosse suficiente, ontem os bretões tomaram na cabeça feio contra a Croácia no futebol, selando a já premeditada eliminação para Eurocopa. Três a dois, num jogo que o empate favorecia o time da rainha. Em Wembley, ou seja, no la Bombonera a inglesa. Acredito que convém maiores comparações, com o intúito de descrever o clima e a amplitude dos fatos. Seria como ver o Brasil perder para o México (um time não tão conhecido, sem muita tradição, mas perigoso), de virada, no Maracanã. O resultado tiraria o Brasil da Copa do Mundo. Para incrementar ainda mais a comparação, meses antes deste jogo, o Brasil teria perdido as finais de vôlei, tanto no masculino quanto no feminino. No caso do feminino, a derrota teria sido contra as arqui-rivais, a seleção de Cuba.

Enfim, uma desgraça nacional.

E por falar em desgraça, o meu timão segue garantindo grandes doses de emoção neste “eterno” Brasileirão. Saí do Brasil assistindo o alvinegro alçando um vôo otimista na tabela de classificação. Cogitei antecipadamente que seriamos pentacampeões. Mas depois de alguns jogos, a figura se inverteu. Aliás, analisando a classificação, posso quase que seguramente afirmar que as dez vitórias que constam à nosso favor tenham acontecido entre a décima e décima quinta rodada. Desde então, não ví o timão em placares positivos (exceto contra o São Paulo!), e esse cai-não-cai entre décima sexta e décima sétima posição.

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| RS | 11/22/2007 12:18:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


A teoria dos germes

Esta semana parece ter definitivamente começado a temporada abaixo dos dez graus Celsius aqui em Londres. E, para o brasileiro médio, isto se traduz em um frio que dificilmente ele já sentiu. Estou sumariamente excluindo os afortunados que freqüentam Campos do Jordão, Serras Gaúchas ou Catarinenses, ou mesmo os barilocheiros, pois para estes frio é desculpa para veraneio, o que contradiz o termo. Não são brasileiros médios, entre os quais eu me incluo, exceto pelo meu costume à climas severos. Já peguei cinco graus em um festival de inverno em Paranapiacaba. Frio cortante. Em todo caso, tirando ocasiões especiais, frio é uma estranheza para mim. Assistia transmissões de futebol europeu e não entendia porquê os jogadores estavam suando e mesmo assim usavam camisas de mangas compridas. As luvas do Juninho Pernambucano seriam meramente estéticas? Até então, para mim, o cúmulo do frio eram os freezers, que operam à dezoito graus negativos. Dezoito graus abaixo de zero é temperatura de outono em Moscou.

As previsões aqui na terra média são menos dramáticas. Essa semana, os termômetros vacilaram entre três e oito graus Celsius – exatamente a faixa de operação de um refrigerador. Se o leitor quer sentir na pele o que é isso, mora no Rio de Janeiro e não pretende vir a Europa, basta entrar na geladeira. Caminhar entre os corredores gelados dos supermercados também serve. Aqueles com freezers e geladeiras, onde estão os iogurtes e sorvetes, e que eu sempre passava correndo. Para a simulação ficar mais realística, o ideal é colocar um ventilador (soprando vento frio, claro), pois aqui bate um vento danado. Uma garoazinha artificial também ajuda, contanto que a água passe antes por uma serpentina bem gelada.

O frio de Londres é contraditório. Comparando com outros países, como Polônia, Suíça, Rússia ou Noruega, a Grã Bretanha é quase um arquipélago do Caribe. Entretanto, mesmo estando em faixas semelhantes às dos refrigeradores, as bactérias aqui não morrem. O cara espirra na Oxford Circus, os micróbios pegam a Jubilee Line do metrô e vêm parar aqui em Willesden Green. Vivos e nocivos, iguais às patologias tropicais. Aqui, somos como presunto na geladeira. Em uma semana, as fatias ficam mofadas. Em duas semanas, os presuntos ficam verdes, e o mofo já virou algo estilo pêlo de rato branco. Na Rússia, a história é outra. A dezoito negativo, os germes viram gelo e o ar é puro. Presunto congelado dura mais. Principalmente quando é desinfetado com vodca.

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| RS | 11/18/2007 11:34:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Sabedoria do oriente?

Hayato é o exemplo de como as pessoas podem ter raciocínios estranhos. E atitudes provocadas por raciocínios estranhos são, no mínimo, estranhas. Depois de oito anos trabalhando para a Mitsubishi, dos quais dois dedicou-se também à algumas incursões como modelo fotográfico, Hayato gozava de alguns luxos que a vida em Osaka poderia oferecer. Com dois carros na garagem – um Jeep Cherokee e um Audi TT – e algum dinheiro no bolso, os horizontes pareciam infinitos.

É nestes ponto que Hayato larga tudo para trás, vai para Londres estudar inglês e trabalhar em restaurante. Trocou a vida cool por uma vida que também começa com “c”, também tem uma sílaba, mas pertence ao português. Muitas coisas combinam entre a minha trajetória e a de Hayato. Exceto pelo fato de eu não ser modelo. Ou pelo fato de que eu não estivesse trabalhando em uma mega-corporação. Ou ainda exceto pelos dois carrões na garagem. Ou, acima de tudo, o fato de que eu sou do Brasil, um país que, tirando o futebol, volei, volei de praia, cerveja e churrasco, é tão ou menos divertido que o Japão. Principalmente para quem curte um vídeo game. Aliás, o Japão é um daqueles países que, de tão poderosos, se permitem ignorar a existência dos demais, no maior estilo estadunidense. Americano não troca dólar quando viaja. Ele acha que sua moeda e sua língua são universais. Assim deveriam ser os japoneses.

Meu amigo japonês tomou uma atitude estranha baseada em raciocínios estranhos. E eu também. Mas a minha foi menos. Enquanto eu conhecer Hayato, vou me sentir menos desconfortável com as atitudes que tomei.

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| RS | 11/13/2007 10:02:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


No salão dos elevadores, eu escolhi aquelas escadas ali.

Vir para a Inglaterra, para mim, em termos de sensação, é como estar pela primeira vez em um prédio muito alto. No estilo do World Trade Center americano. Cheguei na porta, apresentei os papéis para a segurança, uma foto e chapa do pulmão tirada e fui aceito. Vi os elevadores lá no fundo do salão, mas segui a galerinha das escadas. O que poderia ter durado em torno de minutos por elevador, já está durando sete-quase-oito meses pelas escadarias. Muita gente já foi ao topo e voltou pelos elevadores, enquanto eu sigo degrau por degrau. E, enquanto eu subo, bombas e aviões kamicazes estouram e se chocam contra a base do edifício. Sigo ignorando os alarmes de incêndio, o corre-corre, as casualidades que ocorrem pelo caminho. Sigo ignorando a possibilidade do edifício cair. Mesmo porque, agora não importa muito, já que todas as saídas estão em chamas. Ferimentos serão inevitáveis. O que realmente importa agora é a visão lá de cima. Depois, quero mais que tudo expluda-se.

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| RS | 11/08/2007 10:48:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Você é mais esperto do que uma criança de dez anos?

Esse é nome de um dos programas estilo Passa-ou-repassa da tevê inglesa que eu assisti recentemente. Are you smarter than a 10? é a pergunta embaraçosa que o participante (um adulto) tem que responder ao final. O intrépido jogador pode desistir no meio do caminho, refugar perguntas difíceis como “qual é a última letra do alfabeto grego” (categorizada como “história para crianças de oito anos”!), pegar suas quinze mil libras e zarpar. Mas não tão fácil assim. Antes ele tem que dizer que “não, não sou mais esperto do que uma criança de dez anos”. Isso olhando para uma versão wide da câmera da verdade. Aí sim ele pode pegar suas quinze mil libras e comprar um Audi.

As emissoras daqui chegaram à um ponto tão único de inventividade que acabam exportando suas anomalias para emissoras menos favorecidas. Bizarrices como “Dança dos Artístas”, já saudoso quadro em Domingão do Faustão, foi importado daqui. Claro que no Brasil, a Globo não poderia meramente copiar: a atração foi incrementada com a Dança no Gelo. A versão original do Roleta Russa, programa de perguntas e respostas conduzido por Milton Neves, ainda passa aqui. Varios programas estilo o da Márcia ou do João Kleber, em que "pessoas reais" vão lavar sua roupa suja, ainda passam por aqui e levantam a pergunta: quem copiou quem? Volta e meia estou zapeando pelos canais e “ah, então foi daqui que o Silvio Santos tirou aquele programa”. Seu Silvio é mestre em importações. Ele deve ter uma antena especial em casa.

De certa forma, o programa dos adultos tentando levar uma grana respondendo perguntas do currículo escolar da criançada representa a televisão inglesa como um todo. Será que os nossos expectadores são mais espertos que uma criança de dez anos? Quizes, reality shows, e programas de calouros são as produções veiculadas em horário nobre na tevê aberta, que eles chamam terrestrial. Nem a tão falada BBC escapa. A quantidade de canais favorece a epidemia de bobagens. São cinco abertos, aproximadamente quarenta digitais gratuitos e uns seiscentos no pacote máximo da Sky. E, em algum nível, o padrão é relativamente o mesmo. As crianças são tratadas como dementes, tendo em vista programas como Teletubbies e Barney. Os adultos são tratados como retardados à idade mental de dez. Exceto aqueles que compraram o pacote da Setanta Sports e vão poder assistir mais de trezentos jogos da Premier League. Estes são os que disseram sim para a constrangedora pergunta.

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| RS | 11/04/2007 08:56:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


O Highlander é um senhor ruivo, de saia e gaita: Impressões sobre Edimburgo



Ir para Edimburgo é como voltar no tempo. A começar pelo transporte escolhido. O ônibus é uma invenção moderna que parece contrariar o processo de evolução. São versáteis, mas nada como a boa e velha locomotiva. Pelo menos aqui no Reino Unido, onde a malha ferroviária é extensa e eficiente. E, infelizmente, cara. O Megabus saiu vinte e cinco libras cada, contando ida e volta, o que caracteriza uma grande economia em relação às companhias que operam trens. Mas fique sabendo que o cálculo é mais ou menos assim: uma libra para cada hora.

Viajar dez horas de ônibus foi uma novidade para mim. Primeiramente, divertí-me vendo alguns chegando com travesseiros, sacolas de comida, aparelhos portáteis para DVD, iPods, Nintendos DS. Mas as gargalhadas viraram inveja quando, depois das duas primeiras horas de viajem eu já tinha lido todo o jornalzinho gratuito que peguei antes de embarcar, comido metade do suprimento de Pringles da minha mochila e bebido toda a reserva de água. Sem Pringles e sem leituras dá para suportar. Mas sem água e ouvindo o joguinho de futebol do Nintendo DS rolando no banco da frente, por oito horas, incomodam.

Outra novidade foi ficar em hostel (albergue). A idéia não foi propriamente assimilada, nem depois da primeira noite, quando acordei, tomei um banho e saí para dar uma volta. Até eu por os pés para fora do hostel, a sensação era de uma pergunta mal respondida. Exagero à parte, a experiência é curiosa. Seis beliches, doze vagas, quase todas ocupadas. Isso em um dos trinta quartos. Acordei no meio da noite e, a partir de resmungos, mugidos e roncos vindos das outras beliches, tentei descobrir as nacionalidades dos outros mochileiros. Nem tanto pelos efeitos sonoros e mais pelas garrafas de bebidas, pela sacolinha do Lidl (o supermercado mais “de pobre” da Europa) e pelas Havaianas, consegui distinguir um brasileiro numa das camas. Tantas pessoas, numa experiência assaz particular como dormir junto, e tão pouca conversa. Exceto o canadense herói que estava no seu décimo segundo país de mochilada, pois este não tardou em puxar conversa e contar sua história. Tirando o fato de que ele fala dormindo, era um cara gente boa.

Edimburgo é voltar no tempo porque é uma cidade velha. As primeiras pedras do castelo datam de 1100 dC. Os arredores da Royal Mile, uma das ruas principais da cidade, são repletos de casinhas e bequinhos de milianos atrás. Não é por menos que tais quarteirões são conhecidos como Old City. A velhice, de fato, fica concentrada lá. O mesmo pode se dizer dos pontos turísticos e, obviamente, dos turistas. É uma cidade que facilita muito para o turista pobre, já que é possível cobrir todas as visitas interessantes em dois dias, tudo à pé. Ao redor da cidade velha estende-se uma Edimburgo normal, moderna, sossegada.



Os pontos turísticos não são muitos. O castelo é excepcionalmente bem organizado. É um parquinho de diversões, a começar pelo ingresso, que custa onze libras. Praticamente todos os grandes quartos do castelo foram transformados em algum tipo de atração. Há o museu da guerra, o museu das medalhas, o museu dos prisioneiros, o museu da cavalaria, o museu da coroa. Um passeio equivalente à saudosa Montanha Encantada do Playcenter, com a imensa desvantagem de não sermos conduzidos em divertidos barquinhos por caminhos de água. O prêmio de ir ao castelo é a vista. De fato, o que mais me agradou no geral foram as vistas que se tem, tanto do castelo, quanto do monumento ao Nelson (um nome muito estranho para se usar, principalmente numa época pós-Simpsons). A cidade é bonita como um todo, vista de longe e do alto. Algumas fumacinhas, algumas igrejinhas, parques, campos de futebol e rugby, margeados pelo oceano. Uma geografia única, uma Rio de Janeiro trinta graus Celsius abaixo dos quarenta.

Não posso traçar uma opinião sobre o cotidiano da cidade ou da Escócia como um todo. Edimburgo escolhe o que quer mostrar: castelinhos, kilts, gaitas de fole e uísques “artesanais”. E esconde todo o resto. No meio de Pizza Express, Starbucks e Burger King, não vi um sequer restaurante típico. Os gastropubs não escapam e servem english e irish breakfasts. Acredito que fiquei restrito às áreas turísticas de Edimburgo. Os subúrbios, a região de Lothian, a região portuária e a região das pontes talvez sejam mais importantes neste tipo de investigação. Acabei criando um conceito parcial do norte da terra média. O Highlander é ruivo, veste kilt, toca gaita, pinta a cara de azul, enseba o cabelo e almoça um quarter pounder with cheese.

Serviços:
Em Megabus.com você pode comprar uma das duas viagens diárias que saem da Victoria Coach Station. Seja esperto e descole um PSP ou um Nintendo DS.
Os hostels visitados foram Budget Backpackers e o Smart City. O primeiro é para quem quer curtir o verdadeiro espírito da mochilagem. Quartos mistos, banheiros mistos, área para esticar as pernas ou bater uma sinuquinha. O clima é bem jovem, o que, neste caso, é um lado positivo. Leve toalha. O Smart City, por sua vez, conta com uma estrutura monstro. São mais de seiscentas vagas, cinco andares, bar preza. Neste você não esquenta com roupas de cama ou banho. Nem com sabonete.

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| RS | 10/27/2007 03:50:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Rugby: um esporte menos bizarro



Desde que eu mudei para uma casa em que parte dos habitantes são sul-africanos, meu conhecimento de Rugby saiu do nível “um esporte bem bizarro”, para “ele iria marcar um try depois do turn over, mas o juiz deu penalty depois daquele high tackle”. A mudança para a nova casa ocorreu em meio aos play-offs da Copa do Mundo de Rugby, que acontecia na França, acabou ontem e (coincidentemente) a equipe da África do Sul levou o troféu para casa vencendo (coincidentemente) a equipe inglesa num joguinho bem feio, típico de final de qualquer copa do mundo. Muitos kicks, poucos runs, poucos tackles alucinantes, nenhuma briga. Bryan Habana, sul-africano que é o Ronaldinho Gaúcho deste esporte bizarro, pegou a bola poucas vezes. Totalmente diferente da decisão pelo terceiro lugar, entre França e Argentina, um jogo cheio de tudo, principalmente de brigas, e a Argentina levando a medalhinha e silenciando Paris de vez. Para quem não sabia que existia rugby fora do Reino Unido, descobrir que os hermanos são terceiros do mundo foi uma grande novidade. Isso me leva a crer que eles talvez sejam melhores em rugby do que em futebol. O desempenho deles nas últimas copas do mundo do esporte da bola redonda não foi lá tão bom.


(Observação: este vídeo não é da final)

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| RS | 10/21/2007 12:46:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Fog Londrino: enfim um pouco de verdade nos mitos.

O maior ponto turistico de Londres

Neblina, frio, chuva. Piso do metrô escorregadio. Preguiça de tomar banho (dizem). Depois de passar todo o verão sem desvestir a blusa, é impossível considerar que o clima possa ficar pior. Mas a lógica diz que o verão tende a ser a melhor estação de todas, mesmo que não impressione tanto. E a lógica estava certa desta vez. A última postagem deste blog ainda foi sob os efeitos do veranito da terra média. Período o qual ainda era possível fazer algo out-door. Desde então, outono. Um outono bem gelado e Primark aumentando os preços das windbreakers. Inverno severo é a previsão dos mais experimentados. Que venha. Por hora, vou curtindo a primeira visão da neblina londrina em seis meses de estadia.

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| RS | 10/11/2007 10:53:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Still

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| RS | 9/19/2007 10:46:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Para fazer o future perfect

Como o universo foi criado? Dinheiro traz felicidade? Qual o sentido da vida? Como a rainha Elizabeth faz para manter a mesma cara e não bocejar – ou mesmo não dormir – nos eventos oficiais? Por que todas as bandas inglesas começam com “The”? O que é o Peter Crouch? Tais são dúvidas muito intrigantes que poderiam estar zumbindo em minha cabeça como os mosquitinhos minúsculos que incomodam os moradores das margens do Thames. Mas a última barreira do saber para mim tem outro nome e sobrenome: Present Perfect.

O nome deste singular tempo verbal em si já condena o estudante à horas de tensão. O que seria um presente perfeito? Depois de guerras e genocídios no passado, a humanidade não consegue concretizar um presente perfeito e continua falhando. Então, o presente perfeito é passado. Não um passado comum, do tipo ontem, dez anos atrás, quando eu era criança ou na época da construção das pirâmides. O presente perfeito é um passado sem data, simplesmente antes de agora ou quase agora. Nunca agora. A gramática inglesa apela forte para a filosofia e cria um tempo verbal que busca falar de um passado não preciso, momento em que não haviam defeitos.

As explicações variam. Use o present perfect quando você vai falar do passado e não vai referir-se à algum tempo específico. Ou use-o para estabelecer uma ligação entre o passado e o presente. Tais regras parecem simples, inabaláveis, leis. Mas não entram na minha cabeça. Mesmo porque há momentos do discurso que não nos referimos à tempos no passado. Ou seria Ops...I`ve done it again na letra da música, para citar um exemplo extremamente de mal gosto da música pop internacional?

Fato é que o present perfect é o meu elo perdido com a língua inglesa. Não vou colocar a minha volta ao Brasil atrelada ao aprendizado deste conceito. “Só volto quando aprender essa desgraça de present perfect”. Não, até porque isso pode levar uma eternidade. Ou tempo suficiente para eu inventar um outro tempo verbal: o future imperfect.

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| RS | 9/16/2007 10:40:00 AM | Comentários (1) | Link deste post |


Agora o Brasil está em condições de me receber novamente.

Devido a chegada dessas três belgas no Brasil, volto a cogitar minha volta. Na verdade, a volta já era cogitada antes das belgas. Penso em antecipa-la, já que elas vão chegar aí no Brasil mais baratas que aqui, o que representa um milagre. O Reino Unido tem conexões de trem com a Bélgica. Se a Grã Bretanha não fosse uma ilha, teria boa parte das suas fronteiras com a Bélgica. Se os produtores jogassem suas garrafas de cerveja em qualquer praia belga, muitas delas chegariam na Inglaterra. Algumas subiriam o Thames e apareceriam nas curvas das Docklands.

Porém, uma garrafinha da Leffe aqui não sai por menos de 6 reais.

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| RS | 9/09/2007 10:21:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Procura-se chapista (ou chapeiro)




Hoje eu vi um anúncio de emprego aqui em Londres que realmente me chamou a atenção. Vaga de sandwich maker. Normalmente, nomes de cargos em inglês parecem importantes. Assistant manager, por exemplo, até parece um cargo de alto escalão. O mesmo pode se dizer de supervisor, quando pronunciado em inglês. “O cara lá é supervaizor” soa forte, impressiona. A última profissão que eu exercia no Brasil não tinha um nome preciso. Alguns chamam de arte-finalista (as vezes com hífen). Estranho. Em Londra, eu sou chamado de DTP, sigla de Desktop Publisher. Estranho, porém pomposo. Não parece um simples operador de computador. Tampouco parece um finalizador de trabalhos já prontos. Enfim, até uma cleaner parece mais importante que uma faxineira.

Sandwich maker, entretanto, não engana nem o mais analfabeto na língua dos bretões. Começa com sandwich e termina com maker, duas palavras básicas. Parece até nome de produto da Polishop. E realmente é, já que aqui sandwich maker também é nome daquelas sanduicheiras para pão-de-forma que prensam os lanches e dividem-os na diagonal. A profissão sandwich maker é um dos casos em que o título utilizado no Brasil é mais profissional que o termo em inglês. É o amigo chapista, ou também chapeiro. O chapeiro não é um mero fazedor de sanduíches, como o termo inglês propõe. Ele opera a chapa, equipamento importante na feitura dos mais variados lanches. O que seria do McDonald's sem chapas e chapeiros. Num boteco, o chapeiro não só produz lanches como o bauru, o queijo-quente ou o pão-na-chapa. Ele também auxilia na preparação das refeições comerciais. Estala o ovo, frita a bisteca e doura o contra-filé. Nas quermesses e confrontos esportivos, lá está o chapeiro trabalhando em outras duas especialidades da culinária brasuca: o lanche de calabresa e o lanche de pernil de porco destrinchado.

Enfim, chapeiro é profissão, sandwich maker não.

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| RS | 9/05/2007 11:08:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Torre de babel sem legendas




Por motivos técnicos, assistí o filme Babel sem legenda alguma. Na verdade, estou assistindo tudo sem legendas, como exercício de listening. Mas o caso específico de Babel, subtitles são essenciais. Cinco idiomas – inglês, espanhol, japonês, árabe e gestos de surdo-mudo. Até que entendi a história, exceto algumas passagens menores. Admito que a trama japonesa eu não entendi nada. A desventura de assistir esse filme sem legendas é uma experiência que se assemelha com a experiência de estar aqui em Londres. A Europa em si é um pouco babilônica, já que vários países possuem língua própria, e outros se dividem em dois idiomas oficiais. Como eles têm uma certa liberdade para se movimentar, é comum defrontar-se com gentes de toda a Europa em grandes cidades. Ainda assim, Londres é um exagero. Wikipédia diz que a capital britânica abriga faladores de trezentos idiomas diferentes. Todos acabam vivendo uma Babel particular, tendo que conviver e se comunicar com pessoas que não necessariamente se entendem.

O filme mostra diversos mundos bem diferentes e controversos. Conflitos de cultura. De fato, um casamento mexicano, por mais divertido que seja, talvez não seja compreendido por outras culturas. Os americanos comem muito frango, mas não costumam torcer o pescoço do galo. O mesmo à respeito do mega-baseado bolado pela velhinha marroquina. Nem os mais viciados em ervas vão entender a paranga robusta executada no Marrocos. Alguns vão criticar, dizer que o método está errado, que o fininho é melhor. E as diferenças se estendem aos celulares com vídeo-conferência dos japas, ou o desespero por ar-condicionado dos turistas brancos. Londres é um pequeno mundo. A distância entre os kebabs girando nas grelhas, os patos defumados pendurados na vitrine, as massas com molho de tomate, sushi, fish'n'chips e o McDonald's é de algumas ruas, quando não são todos na mesma rua. Em qualquer local público é comum ouvir cinco línguas diferentes. E os problemas retratados no filme são lugares-comum. Conflitos culturais todos os dias. Principalmente de idioma. Ninguém entende todas as trezentas línguas que se falam na capital. Mas se você não entende inglês, você está assistindo Babel sem legendas.

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| RS | 8/30/2007 11:35:00 AM | Comentários (1) | Link deste post |


Colonização

Falar “brasileiro” aqui em Londres é praticamente uma primeira língua não-oficial. A comunidade é forte, mas em alguns momentos ultrapassa o limite do exagero. A pressão para se falar o português é gritante. Estou saindo com as compras no supermercado e, já no caixa, um dos produtos está com preço incorreto. Inicio um diálogo em inglês e já com traços de exasperação com a operadora da caixa registradora. A mesma me interrompe para dizer um “peraí, você é brasileiro?”. Entre, sei lá, dez check outs disponíveis no supermercado, eu caí logo no falante de português. Sob pressão, a figura optou por buscar refúgio na língua amiga, como se o fato de falarmos o mesmo idioma fosse diminuir o problema no preço da batata. No Mac de Tottenham, o pedido pode ser feito direto em português. Tottenham, inclusive, é o centro de operações da maracutaia brasileira em Londres. É o lugar ideal para você se sentir num legítimo centro comercial brasileiro: camelôs, churrasquinho grego (aqui, kebab), panfletagem nas ruas, homens-placa. Localizei um restaurante buffet self-service e um salão de beleza nas proximidades, ambos com a bandeira verde e amarela estendida na fachada. Nunca tentei, mas creio que devam aceitar reais por lá. Talvez até aceitem um tradicional fiado.

Até em situações que poderiam ser desafiadoras para o uso do inglês, o fato de ser brasileiro acaba virando uma deficiência. Como se ser brasileiro fosse o mesmo que ser surdo-mudo. Cortar o cabelo é uma dessas tarefas. Maioria dos imigrantes inexperientes optam pelo corte careca caseiro, seja por falta de confiança na comunicação, seja para economizar umas preciosas libras, ou seja ainda para evitar situações constrangedoras que infalivelmente ocorrem. Comunicar-se bem é vital, já que a sua aparência está em jogo. Recentemente, encarei a tarefa novamente. Iniciei toda a comunicação em um inglês claro, mas a primeira pergunta do barbeiro foi se eu era brasileiro. Respondi que sim, mas que entendo bem e falo um pouco de inglês. O homem de origem turca parece ter levado à mal minha resposta e, mesmo depois de eu ter explicado que eu queria máquina número dois dos lados e dois dedos em cima, ele me aponta uma série de fotos penduradas acima do espelho. Eram cinco quadros com fotos preto e branco. Cinco homens (também turcos) com cortes bem diferentes entre si, variando do careca na extrema direita até o comprido na extrema esquerda. Senti-me jogando uma nova versão de Prince of Persia, escolhendo entre cinco personagens para começar o jogo. Selecionei o segundo nível após o careca, uma perfeita reprodução fotográfica da explicação que havia feito anteriormente, e não travei mais palavras com o barbeiro, já que o inglês dele era pior que o meu. Ao fim, refletindo o acabamento da nuca num segundo espelho, o turco mandou um “tá bom?”. Respondi instintivamente um yeah, it's ok.

Os brasileiros estão imprimindo uma colonização ao contrário em Londres. Há poucas pessoas que não saibam algumas palavras ou resmungos básicos, do tipo “oi”, “tudo bem”, “tá bom”. Algumas palavras de baixo calão já são meio que universais. Não diga “caralho” em publico, por exemplo. Enfim, por ignorância, por preguiça ou por puro gostinho de falar a língua da terrinha, os brasileiros estão impondo o português como segundo idioma na ilha gelada.

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| RS | 8/27/2007 11:57:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Quinto mês

O embarque em Guarulhos foi registrado no dia vinte e um de março, dez e pouco da noite. Após mais de doze horas de vôo, e outras tantas de espera, o agente da imigração inglesa em Heathrow registrou o desembarque como dia vinte e um, mesmo sendo uma fria tarde de primavera, seis graus, do dia vinte e dois. Greenwich Meridian Time não é mais três horas à frente do horário brasileiro? Voltei no tempo? Estou em Los Angeles? Dia vinte e três seria compreensível, dada toda a demora na decolagem e no taxiamento final. Mas vinte e um? Porquê ele carimbou vinte e um sendo que era vinte e dois eu não sei, e no momento eu nem estava muito interessado, já que a correção desta simples carimbada poderia resultar em muito paper work.

A confusão de datas no desembarque funcionou como introdução à saga de irregularidades temporais que se estenderiam ao longo da minha visita. Completo seis dias vinte e dois em terra estrangeira. Cinco meses vivendo três horas a frente do horário de Brasília. Na verdade, quatro horas, pois cheguei junto com o horário de verão inglês. O fato de estar quatro horas à frente por si só não gera muita confusão. De certa forma, já vivia meio que em horário londrino. Não digo que fazia tudo com quatro horas de antecedência, mas os hábitos eram um tanto quanto parecidos. Dormir tarde, não almoçar, jantar cedo, atividades que já faziam parte do meu cotidiano brasuca e foram facilmente adaptadas para a vida na ilha.

O tempo, entretanto, tem se mostrado o maior rival em Londres. A ilha gira em velocidade diferente de outros lugares. Ele, o tempo, parece ser roubado das pessoas, como um pacto com o capeta que rouba sua alma em troca de algum milagre pequeno. Londres lhe dá dinheiro, festas e experiência, mas cobra seu tempo como pagamento. O tempo voa e o envelhecimento é evidente. Não tente adivinhar a idade das pessoas aqui. Se realmente insistirem, chute bem baixo. Cara de trinta, tente vinte. As pessoas parecem muito mais velhas do que elas realmente são. Todos têm negócios com o cão a partir do momento em que lhe são carimbados os vistos. A data subtraída no carimbo do vigilante é, de fato, a firma deste trato.

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| RS | 8/23/2007 11:12:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Do azar

Azar em Londres é igual ao câmbio: quatro vezes maior. As últimas duas semanas foram de muita má sorte. Não posso me dar ao luxo de me achar gorado. Não sou artista, modelo, famoso, gente alvo de olho gordo. Porém, depois que a minha cadela morreu e depois que eu fui despejado do meu quarto, tudo em questão de poucos dias preenchidos com outros eventos pé frio, passei a acreditar em mandingas e simpatias. Só pode ser obra de um serviço bem feito.

A morte da cadelinha Pedrita, um mix de fox paulistinha com pinscher, é um caso que já previa subconscientemente. A pobre tinha dez anos. Vinha se adoecendo frequentemente e comendo pouco. Meu vínculo com o animal se fortaleceu em coisa de dois anos atrás, quando ela aparentava desenvolver um tumor facial, que de fato era uma inflamação ocasionada por um osso de galinha preso na parte interna de sua bochecha. Retirei o osso numa operação simples porém marcante para mim, e a bicha recuperou seu ânimo usual. O momento deve ter sido marcante para ela também: desde então passou a ficar eufórica quando me via, de uma forma que não demonstrava até então. Ela passou a exibir à todos o mesmo nível de empolgação, mas comigo era diferente. Banhos periódicos com shampoo específico para cachorros brancos e comida de latinha sabor carne misturada com ração sólida passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Paralelamente, fui desenvolvendo um gosto por cachorros no geral. Passei a visitar em feiras de filhotes – durante viagens, cheguei a parar em específicos postos de gasolina de estrada onde sabia que eram mantidas tais feiras. Comecei a circular em pet shops. Não sou fã de engomação de cães (mesmo porque não sou fã dos cães passíveis de engomação, tais como poodles, malteses ou yorkshires), mas a secagem com um mega secador de cabelos que eles fornecem em alguns pet shops é uma atração. Os cachorros gostam de vento mais do que qualquer outro animal. Desenvolvi a capacidade de identificar algumas raças. Destaco o dalmata, o labrador, o border collie e o pitbull como minhas preferidas. Fox paulistinha ou jack russell são meus prediletos. Poodle, bichon frizé e todas as linhagens de cães de madame não me agradam. Enfim, minha predileção por cães saiu da total nulidade para uma considerável apreciação em coisa de pouco tempo, tudo em conseqüência de um osso de galinha e uma bola de pêlos brancos e pretos que, por obra das coisas da vida, não precisarei mais alimentar.

Propriedade imobiliária em Londres é assunto para tese de doutorado em filosofia. O brasileiro comum sai da sua inqüestionável vastidão territorial para dividir espaços sumários em cortiços centenários na capital britânica. Tal discrepância por si só já garante um grande conflito ideológico. Entretanto, o mercado imobiliário de Londres, um dos mais alucinantes e caros que eu tenho notícia, proporciona mais do que conflitos ideológicos. Milionários indianos, árabes, irlandeses e os bancos detêm grande parte das propriedades da capital, as quais movimentam entre si ou concedem para os operários através de hipotecas. Como todo mundo quer morar em Londres, a demanda explode e os preços também. Há gente que põe a mão em cinqüenta mil libras só pelo fato de comprar e vender uma casinha. Este cenário de hipotecas, supostos donos (ou landlords), preços altos e grande demanda proporciona a proliferação de sharing rooms: casas que ninguém sabe quem é o dono, alugada ou hipotecada para um suposto dono e administrada por alguém cuja a função é encontrar quinze pessoas para socar dentro da casa. Essas quinze pessoas pagam tarifas semanais e depósitos pequenos, o que facilita a vida dos que acabaram de chegar na cidade, ou dos que não pretendem ficar para sempre. Sei que eu estava indo muito bem numa dessas casas até algum conflito sério entre o banco e o suposto dono, o que gerou um despejo. O suposto dono (e suposto morador da casa) tem dois meses para vazar do imóvel. O administrador, porém, numa manobra de alto risco, segurou os habitantes dentro da bomba relógio, não informou sobre o despejo e avisou os quinze somente à três dias para vencimento do prazo. Sexta-feira, quatro da tarde. Fear and loathing in London durante alguns dias.

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| RS | 8/16/2007 11:43:00 AM | Comentários (0) | Link deste post |


Gramática Inglesa (Fuck Version)

Ao contrário da lógica de que, quanto mais extenso seu vocabulário, mais hábil com a língua você é, a habilidade de falar inglês converge-se para uma única e simples palavra. Fuck. É curioso como o nível de fluência em inglês de uma pessoa pode ser determinado pela quantidade de fuck que a pessoa usa. Tanto que os próprios ingleses, indubitavelmente os mais fluentes em sua própria língua, utilizam a f word – como eles a chamam eufemisticamente – sempre que podem.

De fato, os ingleses adotam o fuck em seu dia-a-dia de forma natural. É uma palavra pitoresca quando se quer mas, na maioria das vezes, é apenas uma palavra a mais, nenhuma propriedade semântica. E isto pode ser comprovado em filmes. Pulp Fiction, um clássico do vocabulário fuck, tem 281 utilizações do verbete, poucas delas com o sentido literal. Nos diálogos, frequentemente fuck não significa fuck, e eat significa fuck. Não assisti a versão dublada de Pulp Fiction. As legendas em português, porém, parecem ignorar quase todas as passagens de fuck. Se bem que as legendas nunca são fiéis; é comum ver shit legendado como “droga”, o que representa uma enorme diminuição de significado.

O resto do mundo não-inglês se diverte com a palavra. Introduzem o fuck em seus falatórios como forma de acobertar o parco vocabulário... e soar muito fluente. Quite busy, very boring, too expensive? Fucking busy, fucking boring, fucking expensive! Além de fácil, soa meio máfia, meio Scarface. Entre os italianos (patronos do linguajar mafioso dos filmes) instalados em Londres é comum se ouvir bastard com a mesma freqüência e aplicação de fuck, muito embora soe estranho, já que bastardo é uma palavra ligada à pessoas. É estranho denominar um animal de bastardo, mesmo que possível. Fora de cogitação qualificar situações ou objetos como bastardos. "Foi bastardamente difícil no trabalho hoje"? Enfim, bastard é uma palavra que não tem força fora da comunidade italo-inglesa. Para eles que estão tão adaptados ao fuck, variar não é pecado.

Para o brasileiro é um desafio adotar o fuck. Somos criativos em matéria de xingamentos. Temos uma grande seleção de palavras de baixo calão que usamos para nos expressar enfaticamente. Puta merda, essa porra do caralho, cú. Certo, usamos bastante as variações de “foda”, entre elas o “fodido”, o “vai se foder” e o favorito “fodeu”, facilmente traduzidos para fuck. Na prática, o brasileiro encontra quatro situações.

A) What the fuck is this?
Que porra é essa?

B) Fucking smell in that fucking place.
Puta cheiro naquela porra de lugar.

C) All is fucked up.
Fodeu tudo. (Ou simplesmente “Fodeu”)

D) You fucking lazy.
Seu preguiçoso do caralho.

Perceba que em A ou B, a utilização de fuck está relacionada com objetos ou situações. Estética e enfase. Já C é um caso especial em que o fuck é quase entendido como seu significado original. Em D, aplica-se o fuck para enfatizar qualidades. Ou defeitos. Enfim, para uma tradução honesta de fuck, precisaremos ao menos de “puta”, “porra”, “foda” e, eventualmente, um “caralho”.

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| RS | 8/09/2007 12:42:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Diferenças

Após quatro meses na Inglaterra, tenho mudado a minha resposta quando os leigos me perguntam sobre as diferenças daqui para o Brasil.

Nos primeiros dias, tudo tinha de ser diferente. Eu não admitia nada igual. Os ônibus têm dois andares. As latas de cerveja têm dois andares. Os pacotes de salgadinhos em tamanho família têm mais de dois andares. As lojas de discos têm três andares. As livrarias têm cinco andares, dos quais um é livraria, Starbuck's e agência de viagens. As lojas de roupas dos indianos têm sempre um andar subsolo só para sapatos exóticos. E toda loja de roupa que tem subsolo, o subsolo é dedicado para roupas masculinas. Subsolo, em São Paulo, é lugar de estacionamento.

Durante meu segundo mês aqui, todos os inquéritos sobre a Inglaterra eram respondidos com “aqui é muito pior”. Comida, televisão aberta, custo de vida, monarquia parlamentarista, tablóides, enfim, tudo sobre o cotidiano inglês era infinitamente pior que no Brasil. Coisas que são matematicamente iguais, como Mac ou Coca, eram misteriosamente categorizadas como piores. Afinal, a latinha de Coca aqui tem apenas 330 ml, e o Mac não vende refrigerante pequeno, só médio para cima, fatores que definitivamente fazem desses standards do consumismo internacional piores na terra média. Coisas que são melhores, como transporte público, também eram obscuramente rebaixadas. “O metro de São Paulo é bem melhor” era uma frase comumente usada em discussões, seguida de “aqui o transporte público daqui fede”. Clássicos da MPB compostos por ex-exilados viraram hinos para mim. Na minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Aqui, o verão iniciara, mas o frio e o vento continuavam. Creio que a minha memória do Brasil fora seriamente afetada após um primeiro mês de verão e nenhum dia acima de 22 graus. Partes do meu cérebro congelaram e tudo que eu lembrava eram passeios em dias ensolarados regados à frutas frescas baratinhas compradas na feira de domingo. Recordações anormais para alguém que assistia as frutas apodrecerem na fruteira de casa, enquanto travava horas de jogatina no Playstation 2. Estranhas recordações para quem pegava ônibus e trem em São Paulo, e chegava a passar duas horas de pé nos trajetos. Enfim, essa fase de “aqui é muito pior” foi superada, para felicidade das pessoas com as quais eu tenho contato e que não suportavam mais tantas reclamações.

Agora creio que estou com o senso crítico estabilizado e funcionando corretamente. As diferenças que existem não parecem tão dramáticas assim. E estou tão acostumado com as diferenças que muitas já deixaram de ser diferenças. O custo de vida é altíssimo e a mão inglesa é um saco. O transporte público funciona bem, é organizado, mas fede. Com isso não dá pra se acostumar.

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| RS | 7/30/2007 02:38:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


Farofagem a inglesa

É comum ter apenas um dia de folga em Londres, e igualmente comum ter apenas um dia de sol no Reino Unido. De fato, comum mesmo são algumas horas de folga e sol, que raramente se encontram. Quando sim, pede-se decisões rápidas. Há aproximadamente 80 milhas da capital dos bretões, Brighton & Hove vem a calhar quando o assunto é um veraneio rápido, um bate-volta, uma farofagem, tudo cabível dentro de preciosas horas.

Uma primeira grande razão para ir para Brighton é que, já que o tempo é curto, melhor ir para um lugar sem muitos atrativos. Desta forma, o viajante não corre o risco de ficar frustrado de não ter conhecido o destino em sua total amplitude. Os atrativos de Brighton podem ser resumidos em dois: Brighton Pier e os jardins do Royal Pavilion, ambos a poucos metros de distância entre si. O primeiro, Brighton Pier, é literalmente um pier que avança uns duzentos metros sobre o mar, recheado de diversões eletrônicas e guloseimas. É bobo, porém pitoresco. Poderia ser tudo sobre terra, mas é sobre o mar. Você não está simplesmente jogando caça niqueis; você está jogando caça niqueis sobre as águas geladas da Grã Bretanha. As máquinas de apostas que aceitam moedas de dois pences garantem alguma diversão responsável caso o vento esteja extremamente frio. Ou seja, sempre.



O segundo ponto importante de Brighton chama-se Royal Pavilion: um palácio que parece grande nas fotos de guias turísticos, mas não é. Para quem está enjoado das construções greco-rococó que dominam a ilha gelada, este palácio traz uma proposta diferente, com seu estilo todo Taj Mahal. O jardim ao redor é bem cuidado. Entretanto, pelos ratos e pelos andaimes, o ponto parece estar saindo de um período de desleixo.



A praia em si pode ser considerada um atrativo, já que é uma experiência assaz diferente para o público brazuca no geral. Ao invés de areia, pedras de aquário. Algumas são grandes e pontiagudas suficientes para tornar uma simples caminhada um feito perigoso. Na arrebentação, que ocorre apenas nos cinco primeiros metros de água, há a presença de uma razoável quantidade de algas vermelhas, pequenas e que aderem entre os dedos. Banhistas, somente os mais ousados, crianças e pessoal especializado com roupas de neoprene, pois a água é gelada. Uma pena, pois a arrebentação é mansa.



Sua fauna é composta basicamente por aves como a gaivota, pombos aos montes, lebres (avistei duas nos arredores da praia naturista), ratos, imigrantes (especialmente brasileiros) e homossexuais. Pombos, ratos, imigrantes brasileiros e homossexuais estão na mesma grande proporção da encontrada em Londres. As gaivotas, as lebres e os caça niqueis de dois pences felizmente estão lá para balancear e fazer a viagem valer a pena.

Serviço:
Brighton & Hove
Site: www.brighton-hove.gov.uk
Ônibus da National Express saem da Victoria Coach Station a cada 30 minutos e custam aproximadamente £10 ida e volta.
Cuidado, pois as cadeiras disponíveis na orla custam £1,50 cada.

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| RS | 7/21/2007 03:45:00 PM | Comentários (0) | Link deste post |


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